Filósofas
através da história
Ana
Míriam Wuensch
professora
da universidade de Brasilía
awuensch@unb.br
A
convicção de que tudo o que acontece no mundo deve ser compreensível
pode levar-nos a interpretar a história por meio de lugares-comuns.
Compreender não significa negar nos fatos o chocante, eliminar deles
o inaudito, ou, ao explicar fenômenos,
utilizar-se de analogias e generalidades que diminuam o impacto
da realidade e o choque da experiência. Significa, antes de mais
nada, examinar e suportar conscientemente o fardo que o nosso século
colocou sobre nós – sem negar sua existência, nem vergar
humildemente ao seu peso. Compreender significa, em suma, encarar a
realidade sem preconceitos e com atenção, e resistir a ela –
qualquer que seja. Hannah
Arendt
Origens do Totalitarismo[1950]. Companhia
das Letras, 1998, 3ª reimpressão, p.12.
Distinguindo-se
da informação correta e do conhecimento científico, a
compreensão é um processo
complexo, que jamais produz resultados inequívocos.
Trata-se de uma atividade interminável, por meio da qual, em
constante mudança e variação, aprendemos a lidar com nossa
realidade, reconciliamo-nos com ela, isto é, tentamos nos sentir em
casa no mundo. Hannah
Arendt
Compreensão
e política [1953] A Dignidade
da Política. Relume- Dumará, 1993, 2ª edição, p.39.
Nossa identidade não depende exclusivamente da capacidade que
mostramos para nos re-apropriarmos do passado, não só nos medimos
com os fragmentos do que “já foi”, senão que, graças ao rodeio
da narração, expressamos também o que “ainda não é”. Quer
dizer, no mesmo gesto nos dizemos a nós mesmas pela mediação de um
relato de como ocorreram as coisas e de como gostaríamos que fossem.
Desde este ponto de vista, talvez não haja nenhuma contradição em
afirmar que as mulheres, em certo sentido, devem entrar no futuro
retrocedendo. Fina
Birulés Filosofía
y género – Identidades femeninas. [1992]
Pamiela argitaletxea, p.17
Não vou negar o
processo de exclusão das mulheres ou sua histórica discriminação,
mas creio que, juntamente com o necessário trabalho de desconstrução,
é possível realizar um trabalho construtivo. Certamente o processo
de exclusão determinou não apenas a escassez
de obras filosóficas femininas, em comparação com as
masculinas, mas também sua falta de transmissão. Este último
aspecto me parece significativo: qualquer um que se dedique com
suficiente afinco a escavar o passado filosófico do Ocidente
encontrará com surpresa muito mais textos e fragmentos escritos pelas
mulheres que pudesse imaginar. Assim, na medida em que não se
concedeu autoridade nem sentido às ações e às palavras das
mulheres, não se trata unicamente de recuperar o passado, senão, por
sua vez, de descobrir novas formas de relacionar-se com ele. O qual
indica que, com respeito à história das mulheres, o trabalho
construtivo deverá passar por um empenho na transmissibilidade, desde
uma decidida aposta pelo indício e pelo fragmento.
Fina
Birulés
idem, p.15
*
*
*
A listagem a seguir destaca a presença e a contribuição
feminina ao longo da história do pensamento ocidental.
As informações apresentadas são fruto da pesquisa de Guilio
de Martino e Marina Bruzzese, que
publicaram Le filosofe.
Le donne protagoniste nella storia del pensiero (Itália: 1994).
Utilizamos aqui a tradução
espanhola das edições Cátedra (Las
Filósofas, Madri: 1996), que apresenta a obra dentro da Coleção
Feminismos. Há outras fontes de pesquisa que eventualmente são
indicadas e complementam as informações ou as ilustram (conf. A
bibliografia geral do curso). A pesquisa
feminista ou de gênero nas ciências humanas e da natureza
alimenta hoje uma revisão de nossa visão de mundo e do próprio
conhecimento, assim como consolida uma agenda política que inclui as
questões específicas e mais gerais das mulheres. À pergunta
“existem mulheres filósofas?” pode-se responder que sim, tanto no
passado quanto no presente, embora nossos currículos tradicionais
ainda as ignorem. O entendimento do que é a filosofia, que subjaz
como critério de apresentação das pensadoras, é bastante amplo
para considerar que a reflexão filosófica interessa-se por tudo o
que se refere à condição humana e gera pensamento reflexivo,
discursivo, narrativo, ficcional ou poético, argumentativo,
conceitual e criativo. Na história do pensamento filosófico, o
interesse dos protagonistas pode concentraram-se mais em um ou outro
campo das atividades humanas e da existência, mostrando o diálogo
com a sua época e uma visão de mundo que enriquece a civilização
(neste caso, a ocidental) e o próprio gênero literário. As mulheres
pensadoras não são uma exceção: são apenas a parte esquecida de
um processo histórico que selecionou e alimentou, privilegiadamente,
a memória da vida e obra dos homens na filosofia. Se entendermos que
o processo civilizatório é fruto do trabalho conjunto de mulheres e
homens, está na hora de voltarmos o nosso olhar na direção das
contribuições daquelas que foram esquecidas. Talvez esta virada
revele dimensões da atividade filosófica passada que permitam a geração
de novos sentidos e práticas na atividade filosófica, atual e
futura.
ANTIGÜIDADE
GRECO-HELÊNICA (séculos
VII a.C. – IV d.C.)
Sacerdotisas,
poetas, educadoras, sofistas, hetairas, lendas:
a resistência feminina na emergência da filosofia ocidental.
Desde
o alvorecer da filosofia, quando a racionalidade começa a
desenvolver-se e distinguir-se das formas mítico-poética e descobre
as formas demonstrativas e argumentativas - quando as noções de sábio
e mágico ainda se confundem e as primeiras distinções entre sofia
e filosofia começam a aparecer, podemos encontrar registros de
mulheres que se ocupavam desta esfera sagrada do saber, como poetas e
educadoras (Safo, Corina), sacerdotisas (Bacantes), personagens míticas
(Musas) e heroínas literárias (Circe, Medéia, Penélope, Antígona,
Ariadne, entre outras). As primeiras pensadoras de que se tem notícias,
mais por referências de doxógrafos e citações em textos literários
do que pela conservação de suas próprias obras, indicam não apenas
discípulas de escolas filosóficas da antigüidade (como em
A vida de Pitágoras, de Jamblico 251-325 a .C., que lista uma série
de alunas da escola pitagórica como Timica, Filtite, Ocelo, Ecelo,
Teano, Mía, Lastenia, Tirsenide, Babelica, entre outras, sendo que
Timica teria fundado sua própria escola), como também mulheres de
destaque na vida cultural de Atenas do século V a .C. É o caso de
Aglaonice, Aspásia, Melanipa e Arete. Aglaonice de Tesalia teria sido
astrônoma e vidente, capaz de prever eclipses. Aspásia de Mileto
(440 a .C.) foi figura influente no círculo filosófico e político
de Atenas. Amante de Péricles, com quem teve um filho, promovia reuniões
literárias em sua casa e participava do debate político da época.
Melanipa, segundo informações sobre um texto perdido de Eurípedes (Melanipa,
a filósofa) seria uma sophé,
uma sábia, que apresentava e discutia a cosmologia de Anaxágoras.
Arete, filha de Aristipo de Cirene (435-366 a .C.) criador da escola
cirenaica, teria dirigido a escola fundada pelo pai e educado seu
filho Aristipo, o Jovem, que organizaria a doutrina de seu avô. Vale
a pena conferir também as comédias de Aristófanes, especialmente
Lisístrata, ou a Greve do Sexo e Praxágoras (Valentina) ou a Assembléia/Revolução
de Mulheres para ter uma noção, pelo avesso, de que as mulheres de
Atenas talvez não fossem as Amélias que Chico Buarque denuncia em
sua canção Mulheres de Atenas.
Diotima
de Mantinéia.
Personagem fictícia criada por Platão (427-347 a.C.), é apresentada
como sábia no diálogo O
Banquete. Para alguns autores, esta personagem poderia ter sido
inspirada em figuras reais, como Aspásia, ou outras, já que aparece
como uma sábia (sophé)
estrangeira.
Hipárquia.
Aristocrata, é elogiada por Diógenes Laertios (Vida
e Obra de Filósofos Ilustres) pela cultura e raciocínio,
comparando-a com Platão. Seguia os costumes e idéias dos cínicos
(Diógenes, o cínico) e escreveu Cartas
e Tragédias.
Asiotea
de Filos.
Ensinava
física na Academia de Platão, quando esta já era dirigida por seu
neto, Espeusipo (393-270 aC), ao lado de outras mulheres que freqüentavam
a escola.
Maria,
a judia, ou Míriam.
Viveu em Alexandria no séc. I d.C., seguidora do culto de Isis e
considerada pelos historiadores da química como a fundadora da
alquimia. Entre os seus escritos, está o livro de Magia
Prática.
Hipácia
de Alexandria.
Falecida provavelmente em 415 d.C., foi filha do matemático e astrônomo
Teón de Alexandria, e deixou alguns títulos de suas obras como Comentário
a Aritmética de Diofanto, Sobre
as cônicas de Apolonio e Corpus
Astronômico. Estudou as obras de Platão e Aristóteles e tentou
aplicar o raciocínio matemático ao conceito neoplatônico de Uno.
Pagã e partidária da distinção entre filosofia e ciência, tinha
prestígio político e acadêmico em Alexandria. Perseguida pelos
cristãos, que a acusavam de perseguição, foi agredida e assassinada
na rua por um grupo de fanáticos liderados por um religioso chamado
Pedro. Hipácia
representava a antiga tradição
egípcia e grega de sabedoria feminina que competia com as autoridades
religiosas da época que começavam a impor uma nova cultura: as
mulheres não tinham mais direito de falar em assembléias e nos
cultos e cada vez menos podiam ensinar nas escolas. (conf. Hypatias’s
Daughters, de Linda Lopez MacAlister )
MEDIEVALIDADE
(séculos V – XIV d.C.)
Visionárias,
místicas, monjas, doutoras: A resistência das mulheres nos primeiros
mil anos da era cristã.
Do
período compreendido como a Patrística na igreja católica até o século
XII, as mulheres ocidentais ficaram privadas do direito à instrução
e à participação pública e por causa disso, com raras exceções,
não temos notícias de escritoras ou cientistas. A poetisa Casia (sec.IX)
foi exilada pelo imperador bizantino Teófilo e se refugiou num monastério
onde continuou a escrever versos, agora contra os homens néscios e
ignorantes. Ana Comneno (séc. XI) filha do imperador bizantino Alejo
I foi historiadora e, com seu marido, terminou a obra sobre a dinastia
dos Comnenos, intitulada Alexiada.
A partir do século XII, ocorre uma virada na cultura e na sociedade
medieval do ocidente, com inovações teológicas e artísticas, e
acontece o despertar das filósofas.
Hildegarda
de Bingen
(1098-1179) De família nobre e numerosa, viveu desde jovem em um
monastério beneditino, onde aprendeu a ler muito cedo. Em 1147, já
era conhecida como terapeuta e visionária. O pontífice Eugênio II
aprovou os escritos de Hildegarda e lhe deu permissão para continuar
escrevendo, e assim, ela se correspondia com soberanos e padres que
lhe pediam interpretações de passagens bíblicas e conselhos
particulares. Vale destacar a proteção especial que recebeu de
Bernardo de Claravel, seu admirador. Ao lado de uma vasta obra de ciência
natural sobre biologia, botânica, astronomia e medicina, onde
figuram, por exemplo, Causae et
Curae, Lingua ignota,
um dicionário de novecentos verbetes sobre ervas e plantas, e Subtilitatis
diversarum naturarum libri novem, um estudo sobre ervas
medicinais, pedras precisosas, animais, planetas, doenças e curas, há
também um programa musical de hinos e cantos litúrgicos compostos
por ela. Reconhecida como autoridade em sua época, fundou um mosteiro
em Eibingen em 1165. Seus escritos místicos e teológico filosóficos,
de inspiração neoplatônica, utilizam o pensamento alegórico,
predominante na cultura do século XII, que explorava o poder lingüístico
da metáfora, sofrem uma virada final: em Liber
divinorum operum, sua visão cósmica aproxima-se cada vez mais da
busca pelas relações numéricas que determinam o equilíbrio do
universo.
Eloisa
de Paráclito
(1101-64) Francesa, chegou a ser abadessa do convento de Paráclito,
uma comunidade monástica fundada pelo famoso filósofo Pedro
Abelardo. Abelardo foi seu professor e amante, de quem teve um filho e
com quem se casou em segredo. O tio de Eloísa, Fulberto, que
pertencia à alta hierarquia católica ficou furioso com a gravidez da
sobrinha, e ordenou a castração de Abelardo enquanto este dormia.
Abelardo se refugia então no campo e, até o fim de seus dias amargou
a perseguição e a hostilidade dos poderosos da igreja na França,
entre eles, Bernardo de Claravel. A longa correspondência entre os
dois amantes documenta a paixão e o debate que nutriram ao longo da
vida (Correspondência ou Epístolas).
Além disso, ela escreveu outro texto chamado Problemata.
O debate ético, a
argumentação, a doutrina cristã, e a ontologia estão presentes em
sua obra e são indicativos do modo como concebia a filosofia, como
uma experiência apaixonada do pensamento, movida pela experiência
real do amor romântico. OBS.: Há um filme sobre sua biografia,
intitulado em português Em
Nome de Deus, do diretor Clive Donner, 1988, Paris Filme.
Catalina
de Siena (1347-1380)
Iniciou sua experiência ascética como Angela de Foligno (1248-1304),
retirando-se em sua própria casa. Aos dez anos, ingressou na Ordem
Terceira de São Domingo das mulheres que, permanecendo em casa,
seguiam um modo de vida rigorosamente religioso e caritativo. Após
uma experiência visionária, em que lhe aparecia Jesus arrancando seu
coração e substituindo pelo dele, saiu pelo mundo como eremita,
denunciando o papa, os reis e os cardeais. Sua crítica principal era
o excessivo compromisso da igreja com as coisas temporais e convocava
os cristãos para uma militância em favor da paz e o repúdio à
guerra pelo amor à Cristo, como escreveu em Diálogo
da Doutrina Divina (1378). Seu espírito reformador era estranho a
qualquer impulso nostálgico ou apocalíptico, e lutou contra os vícios
da igreja respeitando sua hierarquia somente num sentido histórico.
Afastando-se da tradição mística, concebia o amor divino não como
uma experiência nupcial, mas antes como um “sentimento
materno-filial”. Continuou laica e liderou uma comunidade heterodoxa
de homens e mulheres, sendo considerada a última reformadora
religiosa do período medieval. Depois dela, a igreja católica
ocidental não é mais considerada a Civitas
Dei, aquela instituição milenar total que a Europa havia
conhecido depois da queda do império romano.
Cristina(e)
de Pizán (1365-1431)
Considerada atualmente a primeira autora “profissional” da qual se
tem notícia. Filha do médico e astrólogo da corte do rei Carlos V
da França, casou-se com o secretário e escrevente do rei, Étienne
Castel. Aos vinte e cinco anos, ficou órfã do pai e viúva, com três
filhos e sua mãe para cuidar. Sozinha, enfrentando a adversidade e a
hostilidade social, desenvolveu suas qualidades de iniciativa e
coragem e se pôs a estudar e escrever. Seu trabalho foi bem sucedido
e pode viver de sua pena, dedicando sua produção aos príncipes
amantes da literatura, ou melhor, às suas esposas, fazendo livros de
encomenda. Cristina de Pizan participa na querelle
du Roman de la Rose, sustentada nos círculos humanistas da época
e que havia chegado à corte e à universidade, e a converte na
primeira manifestação da querelle
des femmes, debate que seguirá séculos depois, até a Revolução
Francesa. Joan Kelly, em seu artigo “Early Feminist Theory and the Querelle
des femmes, 1400-1789”, analisa com detalhe as características
da querelle, especialmente
pelo que contém de feminismo germinal no desenvolvimento de uma
teoria no sentido original do termo, como visão conceitual, e pelo
que pressupõe de paciente resistência intelectual. Segundo esta
autora, os três elementos básicos deste proto-feminsmo são a) a
oposição dialética à misoginia; b) o embasamento desta oposição
na idéia de “gênero”, tal como a entendemos hoje em dia e; c) a
possibilidade de universalizar a questão e transcender o sistema de
valores de seu tempo, apresentando uma autêntica concepção geral da
humanidade. As mulheres que participaram na querelle
foram as que Virgínia Woolf chamou “as filhas dos homens cultos”,
filhas, irmãs ou sobrinhas de humanistas que foram educadas por estes
e se rebelaram contra aqueles que as preparam para uma sociedade que
proibia a entrada de mulheres. Elas descobriram que o ideal universal
de humanitas não era este,
pois não incluía mulheres. Esta situação contraditória despertou
nelas uma consciência duplamente moderna e feminista. Cristina de
Pizan intervém no debate sobre a querelle
não por questões literárias, morais ou filosóficas, mas pelo
conjunto de argumentos condenatórios e insultantes para as mulheres
que a obra Roman de la Rose
contém. Reage contra a literatura misógina que vinha sendo repetida
desde a antigüidade e que alcança uma expressão generalizada na
Idade Média. Não apenas denuncia este desprezo em relação às
mulheres como também, o que é mais importante, a situação de
desamparo destas perante este empreendimento por não terem acesso à
cultura. No ano de 1405, já em sua maturidade, escreve o seu livro
mais conhecido e reconhecido, A
Cidade das Mulheres. Nele, questiona a autoridade masculina dos
grandes pensadores e poetas que contribuíram para formar a tradição
misógina e decide fazer frente às acusações e insultos contra às
mulheres, que eram tratadas como desobedientes, invejosas, mesquinhas,
embusteiras, faladoras, orgulhosas, luxuriosas, perigosas, etc. Propõe,
com firmeza e segurança, uma utopia, um espaço próprio para as
mulheres e reinvindica uma genealogia de mulheres de capacidades e
qualidades excelentes ao longo da história. O livro adota uma forma
alegórica e dialógica, com a presença de três personagens
femininos, A Razão, a Retidão e a Justiça, que aparecem à Cristina
e lhe propõe a construção de uma cidade para as mulheres. Os
materiais e as defesas desta cidade imaginária são as próprias
mulheres excelentes. Como diz Maureen Quilligan, trata-se de uma
verdadeira alegoria da autoridade feminina, que permite a Cristina de
Pizán revisar a história e ir incorporando todas as figuras
femininas, desde as amazonas e outras personagens mitológicas até
princesas e grandes damas da França, suas contemporâneas, passando
pelas Sibilas, as mulheres ilustres e fortes da antigüidade, as mártires,
etc. (conf.
Mujeres en la historia del
pensamiento, de Rosa Mª Rodrigues Magda, p.79-81)
MODERNIDADE
(séculos XV –XVIII)
A
resistência feminina no Renascimento e na época das luzes (Ilustração/Iluminismo):
revolucionárias, escritoras, educadoras, animadoras de salões.
Ao
longo da Idade Média, as possibilidades de estudo para as mulheres
era restrita à sua entrada em alguma ordem religiosa ou em algum
mosteiro onde poderia aprender a ler, estudar as escrituras e receber
alguma noção elementar de direito civil e canônico; algumas
chegavam a ocupar cargos de bibliotecária, escrevente (copista) ou
professora. Até o renascimento, dominava a idéia de desigualdade das
capacidades intelectuais e profissionais entre os sexos, o que se
refletia nas concepções pedagógicas da época. Vozes isoladas e com
motivações diversas propagavam a necessidade da educação das
mulheres: Erasmo de Rotterdam dizia que a educação de ambos era
necessária para o bom convívio do casal numa sociedade em que homens
e mulheres estão destinados a viver juntos; Martin Luther, para que
as jovens pudessem ler a Bíblia por si mesmas. Até o século VII o
debate sobre a educação foi animado por intelectuais, literatos e
pedagogos que propunham um modelo diversificado de educação,
conforme o sexo, visando justificar destinos sociais diferentes para
homens e mulheres. O pedagogo Amos Comenius (1592-1670) foi uma exceção
ao propor uma teoria da instrução universal, para todas as idades,
todas as classes sociais, sem distinção de sexo. O humanismo, que na
Itália iniciou-se com Petrarca e Boccaccio, ofereceu uma obra mitológico-literária
que resgata as figuras femininas notáveis da antigüidade,
distinguindo o papel da mulher no campo cultural (De
mulieribus claris –1361). O Renascimento, nos séculos XV e XVI,
coincidem com a abertura gradual dos níveis mais elevados de instrução
para as mulheres e com o fim da proibição do acesso feminino aos
campos da arte e da literatura, pelo menos para uma elite aristocrática
ou burguesa. Por outro lado, toda esta efervescência científica e
cultural não é capaz de impedir que os tribunais da Inquisição
espalhem o terror e a morte, principalmente entre as mulheres mais
pobres e velhas, viúvas ou solteiras, durante três séculos.
Teresa
de Jesus
(de Ávila) (1515-1582) Depois de Hildegarda de Bingen, Clara de
Montefalco e de Catalina de Siena, volta, na época da Reforma católica,
a grande tradição da mística feminina. A personalidade majestosa de
Teresa de Jesus é a que representa a exigência de uma experiência
rigorosa e radical naqueles tempos de renovação. Nascida em uma família
da pequena nobreza espanhola,
pretendeu, na adolescência, tornar-se monja, o que foi proibido por
seu pai até 1537, quando fez os votos no Carmelo de Ávila. A partir
de 1544, durante a quaresma, começou a ter visões do inferno, o que
a motivaram a fundar uma ordem, rigorosa e proselitista, para a salvação
das almas. A partir de 1562, começa a fundar monastérios das
carmelita descalças na Espanha, uma variante feminina da ordem à
qual pertencia. Suas obras doutrinais mais importantes são: Caminho
da Perfeição, a autobiografia Livro
de sua Vida, Castelo
Interior ou As Moradas.
Em 1970, foi proclamada “doutora da igreja” pelo papa Paulo VI.
Louise
Labé
(1524-1566) Francesa erudita, literata e música, foi discípula do
poeta neoplatônico Maurice Scevé. Casada e sem filhos, dizia-se que
era mulher de costumes liberais, o que, aliás, costumava-se dizer das
mulheres literatas e não religiosas da época. Escreveu Sonetos
e Debate entre Loucura e Amor. Na
dedicatória desse livro, Labé escreve uma espécie de manifesto das
reivindicações femininas: o direito das mulheres à ciência e
outros conhecimentos, e a possibilidade de empregar sua nova liberdade
na aprendizagem.
Mary
Astell
(1666-1731) Figura importante na cultura protestante inglesa do século
VII, Mary Astell, uma fervorosa anglicana, foi uma pensadora que
unificou suas convicções filosóficas e religiosas em uma visão feminista.
Conservadora em política, ortodoxa e severa em religião, inovou,
contudo, o campo moral e pedagógico de sua época. Nasceu em uma família
simples, em um período histórico em que 80% das mulheres eram quase
analfabetas, e conseguiu estudar graças ao seu tio, que foi seu
preceptor. Através dele, estudou os filósofos de Cambridge, que
serviram de filtro entre a cultura e a religião anglicana e a
filosofia racionalista. Conheceu as obras de Descartes e Hobbes. Com
esta formação, Mary Astell convenceu-se profundamente da necessidade
e da legitimidade de uma evolução espiritual e cultural das
mulheres, e decidiu empenhar-se em romper o círculo vicioso da ignorância
e inferioridade intelectual que aprisionava as mulheres de sua época.
Suas idéias tinham um fundamento tanto religioso como filosófico,
pois sustentava que o uso pleno das faculdades intelectuais, tanto dos
homens quanto das mulheres, era o melhor meio de servir a Deus e que a
função da razão era precisamente guiar as pessoas para a compreensão
das idéias religiosas. Em
1694, publicou a primeira de suas obras de caráter feminista: A
Serious Proposal to the Ladies for the Advancement of their true and
greater Interests. By
a lover of her Sex.
A partir desta publicação, começa uma intensa correspondência com
o filósofo neoplatônico e anticartesiano John Norris (1657-1711),
que foi editada, de comum acordo, depois. Fortalecida e esclarecida de
suas convicções após este diálogo, publica outros textos e
dedica-se a um projeto, nunca realizado, de criação de uma espécie
de mosteiro protestante feminino, que seria uma escola e uma
comunidade onde as mulheres pudessem, livremente, dedicar-se ao seu
aperfeiçoamento racional e espiritual, em um clima afetivo fraterno,
como um modo de vida alternativo às instituições sociais e
religiosas então existente.
Mary
Wollstonecraft (1739-1797)
Autodidata inglesa, aprendeu a ler e escrever tardiamente, aos
quatorze anos. Apesar de ser filha de uma família de posses, que não
investiu em sua instrução, Mary optou por sair de casa e viver
comunitariamente com sua irmã, Elisa e uma grande amiga, Fanny Blood.
Faziam artesanato para sobreviver e tentaram, sem sucesso, abrir uma
escola. Ao longo de sua vida, conheceu vários intelectuais não
conformistas, que contribuíram para alargar sua cultura. Leu
Schakespeare, Milton, Pope, Locke, Rousseau. Publicou seu primeiro
livro em 1987, Pensamentos
sobre a educação das filhas, onde se percebia a influência de
Locke e Rousseau, bem como suas próprias e mais radicais idéias. Em
1790, durante os acontecimentos revolucionários, escreve a
Reivindicação dos
Direitos dos Homens e, em 1972, sua obra mais importante, um
tratado político-filosófico intitulado Reivindicação
dos Direitos da Mulher. Para ela, as mulheres deveriam envolver-se
plenamente no projeto ilustrado e reformador: educação, direitos políticos,
responsabilidade pessoal, igualdade
econômica, racionalidade e virtude inseparáveis, liberdade e
felicidade. Em 1796, começou uma relação com o filósofo radical
William Godwin, do qual engravidou e com quem se casou, apesar de
negar o valor positivo do matrimônio. Em 1797, deu a luz à Mary
Godwin, que depois se tornaria Mary Shelley (1792-1822), famosa
escritora do romance Frankenstein
(1818). Morreu quinze dias após o parto, de septicemia.
Olimpia
de Gouges (1748-1793)
Nascida em Montauban como Maria Gouze, era filha bastarda de um homem
muito influente em seu local de nascimento e de Anne- Olimpe Muisset,
então casada com um açougueiro da vila. Alguns de seu biógrafos
afirmam que não sabia ler nem escrever, situação comum na época
para muitas mulheres, especialmente as mais pobres, mas não deixa de
ser surpreendente para uma mulher que irá escrever mais de quatro mil
páginas de escritos revolucionários ao longo de sua vida, entre peças
de teatro, panfletos, libelos, novelas autobiográficas, textos satíricos,
utópicos, filosóficos...A idéia de que há um homem escrevendo para
uma mulher que apresenta seus escritos era uma crença retomada no século
XVIII, entre outros, por Rousseau, como um advogado da desigualdade
entre os sexos: “Sabemos desde sempre quem é o artista ou o amigo
que sustenta pluma ou o pincel quando elas trabalham. Conhecemos o
discreto escritor que lhes dita secretamente seus oráculos”.
Olimpia de Gouges falava o occitano, como língua materna e o francês
como segunda língua, desde que se mudou para Paris, em 1768, dois
anos depois da morte de seu marido, Pierre Aubry. Deste casamento, tem
um filho e, mais tarde, terá outra filha, Julie. Em 1780 , acontece
uma transformação em sua vida: passa a interessar-se apaixonadamente
pela literatura e sonha em converter-se na Safo de seu século. Sua
metamorfose em escritora não foi de modo algum simples. Além da
oposição de muitos escritores e de seu próprio pai, a quem
idolatrava, pesava contra ela o preconceito já mencionado da época
sobre a atividade criativa das mulheres. Por causa de sua nova
atividade, ela vai enfrentar a marginalidade: filha natural não
reconhecida, com pouca instrução, provinciana, inteligente, com
reputação de mulher galante, indomável e especialista em provocar o
sexo masculino, Olimpia tinha tudo a seu favor para escandalizar a
opinião pública de seu tempo. Mesmo
tendo uma auto-estima elevada, muitas vezes se vê obrigada a matizar
seus talentos com o reconhecimento de suas faltas de ortografia,
sintaxe, conhecimento, como no prefácio de sua peça teatral O
homem generoso. Mas um terceiro obstáculo será mais fatal que os
anteriores na carreira literária de Olimpia: se apaixonará por temas
pouco recomendáveis e altamente comprometidos: será presa por
levantar dúvidas sobre a escravidão dos negros, passará a tomar
posições em favor dos direitos da mulher (divórcio, maternidade,
educação, liberdade religiosa) e emprestará sua voz e sua pena em
defesa de todos os oprimidos e humilhados com tal dedicação que
receberá condenação à guilhotina, em 1793. Entre seus escritos,
destacam-se: Memórias de Mme.
de Valmont, Carta ao povo, Os direitos da mulher e cidadã. (conf.
Olimpia de Gouges, de
Olivia Blanco Corujo)
Destaque:
Os salões franceses dos séculos XVII e
XVIII.
O
século XVIII é considerado o século de maior influência feminina
no plano cultural. As idéias da ilustração se difundiram
rapidamente em alguns dos salões da época. Suas idealizadoras
acolhiam os filósofos, tornando-se suas amigas ou companheiras,
recebendo e discutindo suas idéias e contribuindo, em alguns casos,
na criação de suas obras. O papel dominante da literatura e do
estudo do espírito humano nos salões do século anterior foi sendo
substituído, gradualmente, pelo interesse pelas discussões filosóficas
e científicas, pela curiosidade pelo destino humano, pelos mistérios
da natureza e pelas descobertas científicas. Ainda que houvessem
clubes e cafés, lugares públicos que também proporcionavam debates
e circulação de idéias, os salões femininos, espaços que
conquistaram projeção social e intelectual, continuavam
desempenhando a função de promover o livre debate de idéias e obras
e seguiram sendo, para as mulheres, os únicos lugares onde poderiam
conseguir uma educação superior. As mulheres sábias que promoviam
estes salões nunca recebiam acriticamente as idéias ilustradas, mas
as consideravam à luz de suas próprias exigências e sensibilidade.
Diderot era animador do salão de Mme. de Epinay; Voltaire foi o
centro do salão de Mme. de Châtelet e depois do salão de Mme. du
Deffand. Mme. de Tecin foi
uma biógrafa próxima a Montesquieu. Enquanto as Mmes. de Epinay e du
Deffand polemizaram com Rousseau, Mme. de Choiseul opunha-se à
idolatria por Voltaire ou Rousseau. No salão de Mme. de Lespinasse,
um modesto apartamento que servia de refúgio para os enciclopedistas
D’Alambert, Diderot e Turgot de Morellet, não havia muita comida ou
entretenimento, ao contrário de outros salões mais abastados. Mas a
influência desta senhora era grande: através de seu amigo D’Alambert,
influenciava a nomeação dos membros da Academia Francesa.
CONTEMPORANIDADE
(séculos XIX e XX )
A
resistência feminina na época contemporânea: revolucionárias,
espiritualistas, feministas, acadêmicas. Filósofas, enfim?
O feminismo
foi a primeira forma de identidade pública que as mulheres – antes
uma minoria e depois, grupos cada vez mais extenso - se outorgaram. O
ingresso de mulheres, como sujeito sexualmente diferenciado, na cena
política, se produziu sobre a base filosófico–jurídica
da “Declaração dos direitos do homem e do cidadão” dos
revolucionários franceses. O movimento feminista conviveu, desde o início
do século XIX, com o movimento socialista. O socialismo, por sua vez,
surgiu da reelaboração dos ideais revolucionários e ilustrados e
foi condutor de um projeto de democracia política e de igualdade econômica
e social. Mas não houve identificação nem assimilação do
feminismo histórico com o projeto socialista. Pelo contrário, as
diferenças entre as feministas “burguesas” ou liberais e as
feministas socialistas se acentuaram. O horizonte ético político do
feminismo do século XIX foi a igualdade entre os sexos e a emancipação
jurídica e econômica da mulher, mesmo que a versão burguesa
acentuasse mais a igualdade política e civil e a versão socialista
acentuasse mais a igualdade social e econômica. Também se formou uma
corrente dualista que demarcou a diferença na igualdade e privilegiou
formas de luta e organização específicas e autônomas para as
mulheres. De todo o modo, ao longo do século XIX, as feministas
desenvolveram uma agenda ampla e específica, ao mesmo tempo: a luta
pela liberdade de pensamento e associação, a abolição da escravidão
e da prostituição das mulheres, e pela paz. O signo político do
feminismo mudou na segunda metade do século XIX. Os processos de
industrialização e urbanização que se desenvolveram na Europa e na
América envolveram as mulheres de classes operárias e
pequeno-burguesas nos movimentos socialista e feminista, que começaram
a delinear uma estratégia política específica para enfrentar a
“questão da mulher”. Inúmeras ativistas e escritoras foram
fundamentais no desenho do movimento feminismo que caracteriza este
período. Nos Estados Unidos, Lucretia Mott (1793-1880) esteve
envolvida com a abolição da escravidão, o direito ao voto e a paz
no mundo através da Society of
Friends; na Inglaterra, se formou a Society
for Woman’s Sufrage, e a Ladies
National Associations, defensora da regulamentação da prostituição
e a International Abolitionst
Federation, promovidas por Josephine Butler; também a inglesa
Mary Ann Evans, que publicava sob o pseudônimo de George Eliot,
escrevia novelas de fundo filosófico e pedagógico para a compreensão
da condição da mulher; na França, a anarquista Louise Michel, junto
com outras mulheres, participava da Comuna de Paris (1871) enquanto
Mme. Edmond Adam (1836-1877),que publicava com o pseudônimo de
Julliet Lambert e Mme. Jenny d’
Héricourt envolviam-se com uma dura polêmica contra as idéias
anti-feministas de Proudhon.
Rosa
Luxemburgo
(1871-1919) A protagonista mais importante do marxismo nasceu na Polônia,
em uma família judia. Adolescente, começou a perceber-se de sua
condição judaica e começou a freqüentar os ambientes do partido
social - democrata polonês que era perseguido pela política. Migrou
em 1889 para a Suíça, que funcionava então como uma espécie de
zona franca para socialistas de toda a Europa, e se inscreveu na
Faculdade de Filosofia. Ali conheceu Leo Jogiches, que seria seu
companheiro até 1906 e com quem publicava, em Paris, o jornal A
Causa Operária. Ao longo de seus estudos universitários,
participou, sempre à esquerda, das atividades políticas do SPD, o
partido social - democrata polonês e de encontros políticos
internacionais, como o III Congresso da Internacional Socialista. Em
1897, licenciou-se em Ciência Políticas com a tese O
Desenvolvimento Industrial na Polônia. Antimilitarista, foi presa
diversas vezes. Também na prisão escreveu seus textos e participou
da Liga Espartacus, que participou, junto com os operários e
militares insurretos da chamada República de Weimar, na Alemanha,
instalada em 1918, de caráter democrático-parlamentar. Entre seus
diversos textos, conta-se com Acumulação
do Capital. Contribuição para a explicação econômica do
imperialismo (1912); Militarismo, guerra e classe operária
(1914); A Revolução Russa (1917); entre diversos artigos para o
jornal e revistas como a Spartakus.
Em 1919 é assassinada pela polícia em uma prisão alemã. OBS.:
Há um filme sobre a sua história, intitulado Rosa
Luxemburgo, da diretora Margarethe von Trotta, 1986, Globo Vídeo.
Também Hannah Arendt dedicou-lhe uma biografia (1966), que faz parte
do livro Homens em Tempos
Sombrios, coletânea publicada no Brasil em 1987 e reimpressa em
1998 pela Companhia das Letras.
Lou
Andreas-Salomé
(1861-1937) Louise von Salomé teve um papel intelectual de primeira
ordem na cultura européia na virada do século. Associada aos nomes
famosos do filósofo Nietzsche, do poeta Rainer Maria Rilke e do pai
da psicanálise Sigmund Freud, ela encarna uma síntese de
individualidade e espírito de
época raro. Nasceu na Rússia, em São Petesburgo, numa família
que se orgulhava de suas origens alemãs e professava a religião
luterana. Teve uma educação esmerada, dedicando-se aos estudos literários
e filosóficos com o pastor holandês Hendrick Gillot, um homem de
cultura e viajado. Dotada de uma grande inteligência e uma aparência
agradável, freqüentava o estúdio de seu professor, que a definia
como livre pensadora, para ler Descartes, Rousseau, Pascal, Kant,
Rousseau, Voltaire e textos de história das religiões. Por conselho
de seu preceptor, matricula-se numa universidade italiana e passa freqüentar
o salão de Malwida von Meysergurg (1816-1903), uma intelectual
liberal que também a hospeda. Ali conhece o filósofo Paul Ree. Judeu
ateu e nihilista com quem estabelece uma relação intelectual que
lhes levou a viver juntos como “irmão e irmã”, segundo suas
palavras. O debate entre ambos acerca da questão de Deus, que Lou
entendia como uma falta e busca e não como uma recusa da questão,
teve mais um participante: Friedrich Nietzsche, que também
perambulava pela Itália na época. A relação a três durou o tempo
de Nietzsche enamorar-se dela e pedir-lhe em casamento, o que ela
recusou e significou a ruptura com ele, indo embora para Berlin com
Paul Ree. Na Alemanha, conhece em 1987 o então jovem e desconhecido
poeta Rainer Maria Rilke, com quem mantém um intenso romance e uma
correspondência até 1926. Em uma viagem à Rússia, em 1889, com
Rilke, encontra o escritor León Tolstói, com quem debate acerca da
possibilidade de conciliar progresso técnico e científico com o espírito
religioso russo. Em 1919,
por sugestão do filósofo judeu Martin Buber, escreveu seu primeiro
ensaio de argumento psicológico, O
Erotismo, rompendo com o terreno da arte e da literatura onde até
então transitava. Este ensaio lhe abriu caminho até Freud, coroando
uma intensa busca existencial e intelectual. A partir daí passou a
freqüentar os territórios de debate psicanalíticos e encontrou
nesta teoria o argumento que necessitava para articular seus maiores
interesses: a arte, a religião e a experiência amorosa, como se pode
verificar em seus textos: Reflexões
sobre o problema do amor (1900); Religião
e Cultura (1898) e mesmo o ensaio de 1986, Jesus,
o judeu. A partir de 1923, começa a ser analista didática e
publica, em 1931, Meu
Agradecimento a Freud, entre outros tantos textos não indicados
aqui. OBS.: Em português
está disponível o livro Minha
Vida, pela Brasiliense, 1985.
Edith
Stein (1891-1942)
O pensamento desta autora traz de novo à discussão, em pleno século
XX, a tradição mística cristã de Santa Teresa e de São João da
Cruz, no contexto da Alemanha nazista, da queda da República de
Weimar, e na iminência da Segunda Guerra Mundial. Última filha de
uma numerosa família judia de Breslau, após seus estudos de colégio
buscou ingressar na universidade de sua cidade para estudar psicologia
mas, fascinada pelos estudos de Edmund Husserl, decide transferir-se
para a universidade de Gottinger, onde ele lecionava. Ali também
estuda com Max Scheler. Em 1915 presta serviço na Cruz Vermelha e em
1916 se licencia, com distinção, com uma tese sobre O
problema da empatia [Einfühlung]. Segue estudando o pensamento de
São Tomás e outros autores cristãos, que a afastam das idéias de
Husserl, com quem trabalhava então, a convite dele. Em 1918 decide
retirar-se da universidade, e aproximar-se mais do catolicismo, ao
qual acaba se convertendo em 1922, de pois de ler a Vida
de Teresa de Jesus.. Parece que a decisão de Edith leva Husserl e
outros professores veteranos a serem reticentes quanto à habilitação
para mulheres lecionarem na universidade. Ela protesta contra esta
discriminação encoberta e faz um pedido de esclarecimento, ao qual o
ministério responde em favor da universidade. Convertida ao
catolicismo, começa a lecionar no liceu das dominicanas e, em 1925
dedica-se a uma intensa atividade científica e pedagógica,
traduzindo obras de Tomás de Aquino e Newman e publicando Sobre
o Estado (1925) e A
fenomenologia de Husserl e a filosofia de Tomás de Aquino (1929).
Interessou-se pela questão feminina no campo filosófico e religioso,
publicando Ethos das profissões
das mulheres (1932). Stein sustentava que o movimento feminista
alemão havia conseguido todos seus objetivos na Constituição da república
de Weimar. A nova realidade social das mulheres requeria agora a
defesa dos resultados conquistados e a transmissão às novas gerações
da memória histórica das lutas feministas, uma vez que a renovação
deveria implicar, antes de tudo, as mulheres cristãs. Stein afirmava
em vários textos que o Antigo Testamento e o Direito Romano haviam
perpetuado na igreja uma visão errada da mulher que era insustentável
. Para Stein, a mulher tem uma realidade ontológica igual e distinta
do homem; uma realidade ontológica que deve explorar e conhecer por
si mesma enquanto que a mulher vista pela mulher não é a mesma
mulher vista pelo homem. Parece que Stein pretende propor a consciência
fenomenológica como uma consciência cristã e feminina, como base de
um novo modo de fazer pedagogia, filosofia, ação civil e ação
religiosa. Seus últimos estudos reúnem todos os temas propostos em
seu pensamento, no material inédito intitulado Scientia
Crucis, dedicado a São João da Cruz. A partir de 1938, Edith
começa a ser perseguida pelas autoridades por causa de suas origens
judias e, em 1942, ela e sua irmã são enviadas para o campo de
concentração de Auschwitz, onde morre, no mesmo ano, numa câmara de
gás. Foi beatificada em 1987. OBS.: No Brasil, pode-se encontrar uma
biografia intelectual de Edith Stein feita por Christian Feldmann
publicada pela EDUSC, 2001: Edith
Stein. Judia, Atéia e Monja.
Maria
Zambrano (1904-1991)
Nasceu em Vélez-Málaga, Espanha, em abril. O pai, um catedrático,
estabelece profunda amizade com o poeta Antonio Machado. Em 1924
conhece Ortega y Gasset que a introduz no meio cultural
madrilenho, principalmente na tertúlia da Revista
de Occidente. Completa o curso de Filosofia em 1927, onde estudou
com Xavier Zubiri, García Morente e Ortega. No período que
antecede a guerra civil espanhola, sucedem-se uma série de atos públicos
e de grande intervenção política como a criação da Liga
de Educação Social, mais tarde assaltada e encerrada pela polícia.
Em 1936 Maria Zambrano faz parte de um grupo de intelectuais que, com
missões pedagógicas, iniciam uma nova experiência de educação
popular. Percorrem povoados e aldeias remotas levando-lhes pela
primeira vez o cinema, a pintura, o teatro e a música clássica. Em
janeiro de 1939 para um exílio de 45 anos, vivendo em Havana, México,
Paris, Roma e Suíça, onde continuou seu trabalho como professora de
filosofia até finalmente regressar a Madri em 1984. Morre em 1991, em
meio a um enaltecimento de sua
obra
e de personalidade, tendo recebido vários prêmios. A relação entre
a filosofia e a poesia, o mito e a razão, a paixão e o intelecto, a
obra e a ação, o papel dos intelectuais e o sentido da história
parecem ser a principal preocupação de Maria Zambrano. Pode-se
perceber as influências do pensamento ortegiano e heideggeriano em
sua obra, mas seu estilo e escritura se impõem com uma marca própria.
Propõe a superação do racionalismo através de uma “razão poética”,
cujo exercício prático pode ser verificado em sua própria obra.
Partindo de uma epoké
fenomenológica de cunho místico – o silêncio que deixa falar as
coisas - Zambrano segue a
idéia heidegeriana de que a essência dominadora da razão ocidental,
desde Platão até o idealismo alemão, construiu um logos
desencarnado, desarraigado, que deprecia a vida, um espírito que nega
o imediato para afirmar sua liberdade absoluta. Frente ao logos
que que faz do homem contemporâneo um ser exilado e nihilista,
Zambrano reclama uma razão poética que seja uma mediação para
recuperar o contato com a terra, sem cair no irracionalismo. A influência
de Jung em sua obra, evidente na própria terminologia (animus/anima),
leva a filósofa a destacar a polaridade histórica dos sexos como o
dualismo alma/feminina intelecto/masculino. O tratamento que faz das
figuras emblemáticas de Antígona e Diotima se encontra demarcado,
portanto, na missão salvadora que acompanha a palavra feminina. Esta
missão, entretanto, é o reverso da crítica que faz ao feminismo
“nada é nem vale o moderno feminismo” (em : Eloisa ou a existência
da mulher) já que, segundo Zambrano, este participa do racionalismo
moderno que considera que deve ser superado. Talvez este aspecto tenha
lhe valido o reconhecimento de pensadores como Cioran, que elogia a
profundidade filosófica de Zambrano afirmando que “não vendeu sua
alma à Idéia” e por isto não se tornou “presunçosa e
agressiva” como toda mulher que se dedica à filosofia... (El País,
4.11.1979) OBS.: Em
português, a Assírio e Alvim publicou, em 2000, a coletânea de
textos A Metáfora do Coração
e outros escritos.
Hannah
Arendt
(1906-1975) Johannah
Arendt nasceu em Hannover, Alemanha, em 14 de outubro de 1906, filha
dos judeus Martha Cohn Arendt e Paul Arendt, naturais de Köningsberg,
capital da Prússia Oriental. Esta cidade, famosa por ser também o
lar do filósofo Immanuel Kant, recebera diversas famílias de
imigrantes judeus russos ao longo do século XIX, entre elas, as famílias
Cohn e Arendt, bem estabelecidos comerciantes. A jovem Hannah logo
revelou suas preferências intelectuais, demonstrando gosto pela
poesia, literatura, e teologia. Sua mãe acompanhava e estimulava seu
progresso intelectual, e apoiava suas afirmações perante as
autoridades escolares quando se tratava de ofensas pessoais. Num certo
episódio, um professor a ofendera e a jovem, então com quinze anos,
liderou um boicote às
aulas desse professor e acabou sendo expulsa da escola. Antes mesmo de
terminar seus exames de ensino médio, já freqüentava os cursos
livres da universidade de Berlim: grego, latim, e palestras sobre
teologia cristã e acompanhava os debates acerca da escola de
existencialismo que começava a florescer na Alemanha. Com 18 anos,
ingressou na universidade de Marburg, decidida a estudar teologia.
Nesse período, Hannah Arendt, admirada por seus dotes intelectuais,
recebe de seus colegas o apelido de “Pala Atenas”. Acabou fazendo
seus estudos regulares em Filosofia, pois encantou-se com a
fenomenologia de Edmund Husserl e com um jovem e promissor professor
de filosofia: Martin Heidegger (Ser
e Tempo:1926), que lhe despertou a paixão pelo trabalho com o
pensamento. Muitos anos mais tarde, por ocasião do octagésimo
aniversário do seu antigo professor, veio a tona o fato que houvera
entre eles um romance secreto. Para seus estudos de doutorado, o próprio
Heidegger recomendou-a à Karl Jaspers (Psicologia
das Visões de Mundo:1929), psiquiatra e filósofo que lecionava
na universidade de Heidelberg. Com este novo mestre e professor,
realizou sua tese sobre o conceito de amor em Agostinho, e, durante os
anos de exílio nos Estados Unidos, manteve sempre uma correspondência
intelectual e de respeitosa amizade com Jaspers, a quem sempre
procurou quando, mais tarde, voltou a visitar a Alemanha. Em 1933 foi
para Paris, já casada com seu primeiro marido, Günther Stern, e
trabalhou para uma organização sionista que ajudava crianças e
mulheres a imigrarem para a Palestina. Em Paris conheceu um militante
comunista, amigo de Berthold Brecht, que viria a tornar-se seu segundo
marido: Heinrich Blücher. Em 1941 o casal chega em Nova Iorque, numa
situação econômica muito precária. Lentamente, a vida se
reorganiza. Hannah Arendt começa então suas pesquisas e lança o
primeiro livro de impacto junto à opinião pública, As
Origens do Totalitarismo (1951). A partir de então, a intelectual
alemã redireciona toda a sua formação teórica para empreender a
tarefa de pensar os acontecimentos de sua época. Pensar de um modo
novo a política e criticar a tradição filosófica de abordagem da
política passa a ser o seu tema. Hannah Arendt começa a fazer as
perguntas que interrogam o seu tempo e os seus contemporâneos: O que
estamos fazendo? A política ainda tem ainda, de alguma forma, um
sentido? Seus ensaios tratam da crise da cultura, da educação, da
ruptura entre o passado e o futuro e das relações entre política e
filosofia. Suas reflexões e críticas dirigem-se às ciências
sociais, mas seus escritos alcançam a todo o leitor médio universitário
interessado em compreender o que está acontecendo, o que aconteceu, o
que se pode ainda esperar. Além de uma série de artigos em colaboração
para revistas e periódicos, e de cursos eventuais que realizou em
diversas universidades americanas e européias até o fim
de sua vida - ela faleceu durante a elaboração da última
parte de sua última obra: A
vida do espírito. O Pensar, O Querer, O Julgar, em 1975, entre um
café e outro, de ataque cardíaco – podemos destacar algumas obras
fundamentais para todos aqueles interessados em seu pensamento, além
daquelas já citadas: A Condição
Humana. (1958); Entre o
Passado e o Futuro. (1963); Eichmann
em Jerusalém. Um relato sobre a banalidade do mal.(1963); Crises
da República (1969); Lições
sobre a Filosofia Política de Kant (1982). OBS.: Informações
biográficas selecionadas do livro de sua ex-aluna e colaboradora Elizabeth
Young-Bruehl. Hannah Arendt:
Por amor ao mundo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará,1997.
Simone
de Beauvoir (1908-1986)
Nasceu em Paris, primeira filha de uma família de situação econômica
confortável. Duas experiências marcam sua juventude: a leitura de
Balzac, que a faz perceber que já não acredita em Deus e a intensa
amizade com Elizabeth Mabille (Zazá), sua “única relação não
livresca” de adolescência, que morreu jovem de um mal desconhecido.
A experiência da morte de Zazá impressiona profundamente Simone, e
permite a descoberta do sentido do luto, da morte, do absurdo da vida.
Elas haviam se inscrito juntas para a universidade de Sorbonne, onde
Simone estudou matemática e filosofia e conheceu Jean-Paul Sarte
(1905-1980) e Paul Nizan, entre outros que fariam parte do grupo de
intelectuais franceses mais importantes após a Segunda Guerra
Mundial. Muito jovem já era uma leitora ávida e decidiu precocemente
ser uma escritora. Orientou-se por este projeto e deixou vasta obra
literária e filosófica, sendo que muitos dos seus textos são
autobiográficos, como Memórias
de uma Moça Bem Comportada (1958), A
Força da Idade 1960), A
força das Coisas (1963),
Uma Morte muito Doce (1964), Balanço
Final (1972) e A Cerimônia
do Adeus (1981). Nestes textos, retoma e examina recorrentemente,
os primeiros trinta e cinco anos de sua vida, examinando a fundo este
período de sua vida e estabelecendo conexões sempre novas com suas
experiências posteriores. A vida adulta de Simone esteve marcada
pelos acontecimentos culturais e políticos da época e decididamente
vinculados à sua relação intelectual e afetiva com Sartre. Foi
colaboradora assídua da revista Le
Temps Modernes, fundada por ele e Maurício Merleau-Ponty em 1945,
e nas décadas de 50 e 60 viajou pelo mundo debatendo sua produção
filosófica e literária, bem como interagindo com vários grupos políticos
e feministas. Por uma moral da
Ambigüidade (1947) e O
Segundo Sexo (1947), sua obra mais famosa, que tornaram-na um ícone
da movimento feminista dos anos 60 e 70, consolidam Simone como uma
filósofa existencialista, que também utiliza os pressupostos
fenomenológicos e do materialismo histórico para pensar o seu tempo.
Em 1970 escreve A Velhice,
que retoma as análises de O
Segundo Sexo para tratar do tema existencial do envelhecimento na
perspectiva da mulher. Ganhou um prêmio literário por Os
Mandarins (1954) e fez sucesso com a narrativa Todos
os Homens são Mortais (1946) e A
Convidada (1967). Em 1957, escreveu A
Grande Marcha, sobre a Revolução Chinesa, um estudo documental,
crítico e problemático sobre a China após a revolução de 1949.
Junto com Sartre, foi nomeada membro do Tribunal Russerl, o tribunal
internacional encarregado de julgar os crimes cometidos pelos norte
americanos e seus aliados na guerra do Vietnã. Em 1968, polemizou
sobre a invasão soviética à Tchecoslováquia e se uniu ao movimento
estudantil do chamado maio
francês. A partir dos anos 70, engajou-se ativamente nas ações
do Movimento de Libertação das Mulheres, grupo feminista da
“Segunda Onda” francês e participou com os dissidentes russos em
ações de solidariedade em favor dos perseguidos por motivos ideológicos
e políticos. Falece em 1986, seis anos após a morte de Sartre.
Simone
Weil
(1909-1943) Nasceu em Paris, filha de uma família judia, mas não
recebeu educação religiosa. Foi aluna do filósofo Alain [Émile
August Chartier] de 1925 até 1928; em 1931 conseguiu a habilitação
para ensinar filosofia na Escola Normal Superior. Durante alguns anos
foi professora do instituto mas, seguindo seu impulso político e sua
fé caritativa, decidiu fazer parte da classe operária: dividia seu
salário com eles e se interessava por seus problemas humanos e
sindicais. Renunciou ao ensino em 1934 e começou a trabalhar como
simples operária. Em 1936, quando estourou a guerra civil espanhola,
partiu para unir-se aos militantes antifranquistas impulsionada por um
internacionalismo que comprometia os intelectuais, escritores e
militantes de esquerda do mundo todo. Vítima de um acidente, viu-se
obrigada a voltar. Dedicou-se, então, a viajar pela Itália, onde
também visitou Assis. Em 1938, já iniciada sua “conversão” ao
catolicismo, situou o problema religioso como o centro de seus
interesses. Simone Weil nunca chegou a ser uma católica, mas buscou
elevar-se em uma religiosidade essencial que brotava de suas intuições
mais pessoais e profundas. Suas reflexões políticas e filosóficas,
a partir da análise do marxismo e de sua experiência na fábrica, é
uma crítica às idéias de poder, de estado e de burocracia, e uma análise
do esvaziamento e da perversão da autoridade, ao mesmo tempo em que
defende o trabalho como valor humano, um símbolo de humanidade e
materialidade do homem e defronta-se com sua condição de alienação
estrutural e metafísica. Daí surge a necessidade religiosa, ao
resgate do caráter sagrado da experiência moral e das relações
humanas e mundanas. Sua contribuição filosófica política e moral,
aliada ao seu percurso biográfico, revela uma das personalidades mais
complexas e interessantes do século XX. Seus textos refletem e
tematizam sua experiência e suas intuições, bem como seu percurso
pelo marxismo até a religião como experiência iluminadora do
sentido da ética. Reflexões
sobre as causas da liberdade e da opressão social (1934); Reflexões
sobre as origens do hitlerismo e A
Ilíada, poema da força (1939); Deus
em Platão (1940); Intuições
pré-cristãs (1941-42); Apego.
Prelúdio para uma declaração dos deveres para o ser humano
(1942-43). Sua saúde debilitada ao longo dos anos a levou a morrer em
agosto de 1943, no sanatório de Ashford, em Londres, onde ainda se
dedicava a um último projeto político e de pesquisa.
Angela
Davis. Esta
norte americana ficou internacionalmente conhecida na década de 70
como ativista radical do movimento político black
power- as panteras negras.
Oradora brilhante, seus escritos mais populares em periódicos de
divulgação da causa negra revelam habilidades analíticas
sofisticadas. Sua persona pública
está associada a elementos míticos de uma época em que o movimento
estudantil alcançou proporções internacionais e o movimento negro
alcançava uma dimensão política sem precedentes na trilha das
reivindicações de Martin Luther King (também filósofo). Poucos
sabem Davis que teve formação filosófica acadêmica, foi aluna de
Herbert Marcuse e fez seu doutorado na Alemanha, na Universidade de
Frankfurt, estudando Kant, Hegel e Marx com Habermas e Adorno (que
orientou sua tese), entre outros. Nos Estados Unidos, em sua graduação,
havia estudado com Herbert Marcuse e há uma hipótese de que ele se
refira a ela em seu Ensaio
sobre a Liberação(1969) “ What are the people in a free
society going to do? The
answer which, I belive, strikes at the heart of the matter was given
by a young black girl. She said: for
the first time in our life, we shall be free to think about what we
are going do.” Interessava a Angela Davis as ferramentas e os
pressupostos da teoria crítica dos pensadores da Escola de Frankfurt,
assim como interessava a ela sua própria realidade e o destino político
da comunidade negra norte americana. E interessava-se por estes temas
como mulher, negra, política e pensadora, não nesta ordem, mas de
uma forma indissociável. É
por isto que na filosofia vai debater os conceitos de liberdade e
liberação, bem como reivindicar a reflexão sobre sexismo e racismo
como temas teóricos relevantes, ao lado de classe e poder, do mesmo
modo que na militância no movimento pela Liberação Negra americana,
vai lutar para incluir a perspectiva de gênero. Davis considera o
racismo e o sexismo, junto com as classes sociais como os elementos
que constituem os pilares do capitalismo. Ação e reflexão são dois
aspectos inseparáveis de sua vida e obra, e seu trabalho enfocou três
áreas: teoria crítica, teoria da liberação negra, teoria
feminista. Seus escritos trazem um pensamento transformador para a
reflexão filosófica no século XX, embora as questões que levantou
ainda estão longe de serem superadas. Os títulos de alguns de seus
trabalhos são: Lectures on
Liberation (1971); Angela Davis: An Autobiography (1974); Women, Race
& Class (1981); Meditations on the Legacy of Malcon X (1992);
Afro Images: Politics, Fashion, and Nostalgia (1994); Black Women in
Academy (1994) Na Essay on Liberation (1969) (conf. artigo Notorious
Philosopher. The transformative
life and work of Angela Davis, em: Linda Lopez McAlister, Hipatia’s
Daugethers)
OBSERVAÇÕES
FINAIS:
Da segunda metade do século XX até agora, a lista de mulheres que se
ocupam da filosofia (em suas interfaces com outros campos do
conhecimento ou que participam de ações afirmativas para a
transformação da condição da mulher na saúde, no trabalho, na
vida doméstica, na educação dos filhos, na produção teórica e na
participação política) cresceu vertiginosamente. Gradativamente, as
mulheres conquistam o espaço acadêmico e começam a transformar o
feminismo e as questões de gênero em linha de pesquisa nas mais
diversas áreas. Caberia então continuar esta pesquisa e analisar as
características da abordagem filosófica feminina deste período
recente da história e as transformações da agenda feminista
internacional, bem como levar em conta as implicações de um marco
eurocêntrico na
reconstrução ou genealogia das mulheres filósofas.
POR
FAZER: A CONTRIBUIÇÃO INTELECTUAL DAS MULHERES NO BRASIL
Para
uma apresentação da contribuição histórica do pensamento das
mulheres no Brasil é preciso fazer uma pesquisa em várias fontes,
uma tarefa que apenas começamos a vislumbrar. Indicamos algumas
fontes iniciais para uma pesquisa deste tipo. O Dicionário
Mulheres do Brasil (SCHUMAHER e BRAZIL: Zahar, 2000) é uma fonte
diversificada; A História da
Filosofia no Brasil, vol. 3 e 4 (JAIME: UNISAL/VOZES, 2000) é uma
fonte específica. La Filosofía
en América Latina (GUY, Alain: Acento Editorial , 1998) um
panorama da filosofia pós-colombiana, com destaques de contribuições
femininas brasileiras em um panorama mais abrangente das influências
européias nos trópicos. Provavelmente encontraremos teses de
mestrado ou doutorado sobre o tema, se procurarmos. De toda maneira,
é uma bela oportunidade para conhecer a nossa história desde uma
outra perspectiva e resgatar a memória das mulheres que participaram
dos acontecimentos políticos e contribuíram para o desenvolvimento
da filosofia entre nós.
Bibliografia
AMORÓS,
Celia. Tiempo de Feminismo.
Sobre Feminismo, proyecto ilustrado e postmodernidad. Madri: Cátedra,
1997.
_____________
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